
Muito popular em festas e especialmente durante o carnaval, a combinação de bebidas alcoólicas — geralmente vodca — com energéticos é vista por muitos foliões como uma forma de “aguentar mais tempo” ou reduzir a sensação de embriaguez. Especialistas alertam, porém, que a mistura pode trazer riscos reais à saúde, inclusive para pessoas jovens e sem doenças conhecidas.
De acordo com cardiologistas, o principal problema está no efeito oposto das duas substâncias no organismo. Enquanto o álcool atua como depressor do sistema nervoso central, os energéticos contêm estimulantes como cafeína e guaraná, que aumentam o estado de alerta. Essa combinação cria um conflito fisiológico, com impacto direto no sistema cardiovascular.
“Do ponto de vista cardíaco, a mistura favorece taquicardia, picos de pressão, palpitações e arritmias”, afirma o cardiologista Rodrigo Otávio Bougleux, chefe da Seção de Cardiologia do Esporte do Instituto Dante Pazzanese e diretor científico do DERC/SBC. O risco, segundo ele, se intensifica em ambientes típicos de festa, que envolvem calor, dança intensa, pouca hidratação, consumo excessivo de álcool e privação de sono.
Além do impacto físico imediato, os energéticos podem mascarar os sinais clássicos de embriaguez. “O álcool provoca sonolência e cansaço, que funcionam como um freio natural. A cafeína reduz essa percepção, criando uma falsa sensação de controle”, explica Bougleux. Esse efeito aumenta a chance de consumo excessivo de bebida alcoólica, prática conhecida como binge drinking.
Na maioria dos casos, os efeitos se manifestam como mal-estar passageiro, mas alguns sinais exigem atenção médica, como dor no peito, falta de ar, sensação de desmaio, confusão mental e palpitações intensas ou irregulares. Segundo os especialistas, esses sintomas podem indicar risco cardiovascular ou intoxicação significativa.
Mesmo jovens sem diagnóstico prévio de doença cardíaca não estão livres de problemas. “O risco de um evento grave é baixo, mas alterações como taquicardia e picos de pressão não são raras quando se somam álcool, energético, calor e desidratação”, diz Bougleux.
A mistura é especialmente desaconselhada para pessoas com hipertensão, arritmias, transtornos de ansiedade ou que fazem uso de medicamentos ou outras substâncias estimulantes. Estudos internacionais reforçam o alerta. Pesquisa conduzida por universidades norte-americanas identificou associação entre o consumo combinado de álcool e energético e maior risco de binge drinking e de transtornos relacionados ao uso de álcool.
Especialistas reforçam que o energético não “corta” o efeito do álcool no sangue. Ele apenas reduz a sensação de embriaguez, o que pode levar ao exagero. A recomendação é evitar a combinação, intercalar bebidas alcoólicas com água, alimentar-se adequadamente e respeitar os sinais do corpo.
“Prevenção não é estragar a festa, é evitar que o organismo chegue ao limite”, resume o médico Gilberto Ururahy, diretor-médico da Med-Rio Check-up.


