CARNAVAL: Por que fantasias, fetiches e vivências reprimidas são liberados no carnaval, segundo especialistas

Foto: Alex Ferro / Riotur

Fantasias ousadas, corpos seminus, encarnação de personagens e novas vivências relacionadas à sexualidade. Para muitos foliões, o carnaval funciona como um período de suspensão das regras sociais, em que desejos e comportamentos normalmente reprimidos ganham espaço nas ruas, nos blocos e até na Marquês de Sapucaí.

Entre glitter, plumas e fantasias, muitos encontram no carnaval a chance de viver, ainda que por alguns dias, versões de si que costumam ficar escondidas no resto do ano.

Especialistas ouvidas, explicam que o fenômeno não significa que o carnaval “crie” fetiches ou vontades, mas que o ambiente de permissividade facilita a expressão de desejos que já existem nas pessoas. Além disso, especialistas reforçam que orientação sexual e fetiche são coisas diferentes e não devem ser confundidas.

“Tenho 39 anos de carreira e posso dizer que todas as pessoas usam máscaras. Isso não significa que seja algo ruim, é apenas uma forma de proteção do ego para enfrentar o mundo. São pessoas ocupando papéis na vida. Fazendo um link com o carnaval, posso dizer que, nesse período, algumas pessoas deixam de lado essas máscaras e se revelam”, afirma a psicóloga Ana Cláudia Bittencourt Amoras.

Ana reforça que o carnaval é o momento em que as pessoas costumam realizar algo que, geralmente, idealizam.

“São fantasias, acessórios, maquiagens ou comportamentos. Pode ser herói ou assassino. Nesse momento, elas colocam para fora o que têm dentro delas, de forma positiva ou não. Fantasia é idealizar o que pode estar escondido por muitas camadas do inconsciente.”

Para muitos, esse período também representa a primeira experiência pública fora dos padrões tradicionais.

Janela de oportunidades

A psicóloga e sexóloga Michelle Sampaio explica que a festa cria uma sensação de oportunidade para experimentar novas vivências.

“O carnaval é sempre um momento em que as pessoas aproveitam para dar uma extrapolada. Elas enxergam ali uma janela para fetiches, exibição do corpo ou até novas vivências sexuais”, afirma.

Segundo ela, apesar de alguns passarem pela “ressaca moral” no pós-folia, a maioria lida bem com a experiência.

“Vejo mais gente feliz por ter usado esse espaço do carnaval para essas vivências do que lidando com arrependimentos. A sociedade tem regras e tabus, e a pessoa precisa desse espaço de não julgamento. É aquela sensação de ‘eu queria que essa fantasia fosse eterna’”, diz Michelle.

Equilíbrio entre liberdade e respeito

O desafio, na visão das psicólogas, é equilibrar liberdade e respeito.

“A essência do carnaval é alegria e música, mas é preciso respeitar o limite do próximo também. Pensar e pesar bem o que vai fazer. A liberdade do ser humano sempre esbarra na liberdade do outro”, destaca Ana Cláudia.

arrependimento, segundo Ana, costuma aparecer para as pessoas que não estão seguras de suas escolhas.

“As pessoas se deixam ir além no fetiche e na nudez. Muita gente acaba associando felicidade ao exibicionismo e, em algumas vezes, acontecem excessos. Quando a pessoa não está bem, pode estar mais suscetível a isso e, depois que passa o carnaval, ela se arrepende”, alerta.

Folia sim, assédio nunca!

Na visão da sexóloga Michelle, a conscientização em relação ao assédio também foi um fator importante para as pessoas se sentirem mais seguras para exporem seus corpos sem sofrer abusos ou importunações.

“Assédio não é brincadeira de carnaval. O movimento feminista, o movimento do ‘Não é não!’ e a conscientização sobre o que é assédio têm um valor muito importante nessa conquista da liberdade. Sexualidade é como a gente se representa, como lida, como comunica e como quer mostrar o corpo. E isso tem que ser respeitado em qualquer situação, enfatiza a sexóloga.

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